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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

BIOCOMBUSTÍVEIS

Economia

ANÁLISE ECONÔMICA

Futuro dos biocombustíveis depende de novas práticas

Ricardo Beltrão Sabadia*



Em função da previsão de esgotamento das reservas de petróleo e dos efeitos nocivos das emissões de dióxido de carbono, a produção baseada em fontes renováveis de energia é uma tendência irreversível no mundo E, nesse cenário, a questão dos biocombustíveis toma uma dimensão estratégica para o Brasil.
Os biocombustíveis podem representar para o Brasil uma grande oportunidade de empregos e inclusão social e podem consolidar o país como um vigoroso mercado exportador do produtor Além disso, podem contribuir consideravelmente para capturar carbono da atmosfera e reduzir o aquecimento global.

Isso exige, no entanto, que o biodiesel esteja baseado em novas práticas de produção e gestão. Se o negócio não estiver associado à qualidade de vida dos trabalhadores; a um balanço confiável na emissão de CO2; a cuidados para minimizar pressões sobre os preços os alimentos, sua aceitação mundial será muito difícil.

Se o motor da indústria de biocombustíveis se basear apenas no lucro imediato, certamente suscitará dúvidas quanto à sua sustentabilidade. Pois estaremos apenas perseguindo a lógica que gerencia o atual negócio do petróleo - e que vem se demonstrando equivocada. Seria trocar seis por meia dúzia.

Felizmente, essas preocupações começam a ser assimiladas por parte considerável dos atores envolvidos na produção de biocombustíveis. Já existem pesquisadores, investidores e empresas empenhados em não apenas produzir biocombustível, mas fazê-lo da maneira inovadora e adequada.

Nesse aspecto, convém destacar a SuperVerde Ltda., com sede em Fortaleza, que recentemente lançou parceria com agricultores familiares para a produção de mamona no interior cearense. Essa empresa merece atenção pelo fato de ter oficializado em estatuto - de forma inédita no ramo dos biocombustíveis - dez princípios dos quais não pode se desviar.

Assim, qualquer parceiro ou investidor que se associar a SuperVerde tem consciência, de antemão, de que é proibido atropelar tais princípios. E isso é um avanço considerável, uma forma inovadora de tocar o negócio dos biocombustíveis.

A SuperVerde, por exemplo, estabeleceu que parte do lucro vai ser obrigatoriamente reinvestida em pesquisa e desenvolvimento social. E tendem a ser somas interessantes, considerando que a empresa dispõe de 45 milhões de euros para aplicar em 60 mil hectares de cultivo próprio e igual área em parceria com pequenos produtores.

A empresa também decidiu que vai investir somente na região Nordeste. Além de evitar a destruição da floresta amazônica, essa postura implica, ao mesmo tempo, em reconhecimento das potencialidades nordestinas e o desejo de contribuir para o desenvolvimento da região. Decidiu também que vai cultivar alimentos junto com oleaginosas, para evitar pressão sobre os preços dos alimentos.

Também decidiu, entre outras coisas, que vai trabalhar preferencialmente com agricultura orgânica e procurar fomentar relações comerciais justas com os pequenos produtores parceiros. Esses princípios são opções dos investidores, mas também uma antecipação do que vai ocorrer no mercado mundial de biocombustíveis.

Especialistas estimam que, em 10 ou 15 anos, as empresas que não observarem esses critérios terão sérias restrições para exportar. É bom saber que existem empresas preocupadas com o futuro dos biocombustíveis. E que o Ceará está sendo pioneiramente o berço de uma inovadora experiência de produção e gestão, na qual o lucro dialogue respeitosamente com homem e a vida no planeta.


* Presidente do Instituto Agropólos do Ceará.

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