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sexta-feira, 20 de março de 2009

"A raiz foi a ambição dos bancos" - A CEARÁ TRADE BRASIL continua esclarecendo sobre a Crise Financeira Internacional


Economia
Entrevista

Encerrando a série de matérias sobre os seis meses da crise econômica mundial, o cearense Alexandre Campos, diretor de controladoria de um banco alemão com sede nos Estados Unidos, revela ao O POVO os bastidores do setor financeiro americano

Dalviane Pires da Redação20 Mar 2009

Aos 41 anos, o cearense Alexandre Campos, diretor de controladoria de um banco de investimento alemão com sede em Nova York, nos Estados Unidos, tem acompanhando a crise econômica mundial de dentro, na origem. Viu bem de perto o “boom” do setor imobiliário, com a supervalorização dos imóveis e as transações de alto risco realizadas por bancos e instituições financeiras no já conhecido crédito subprime. Viu também o valor desses imóveis cair pela metade, gente perder suas casas por não ter como pagar as prestações da hipoteca e um sistema financeiro caótico após operações inicialmente lucrativas. Campos fala ao O POVO sobre os bastidores do sistema financeiro norte-americano seis meses após o estopim da crise.
O POVO - No fim de semana da concordata do Lehman Brothers, acredito que as coisas no setor financeiro americano já estavam tensas. Como foi que vocês, que atuam diretamente nesse setor, receberam as primeiras notícias de quebradeiras e falências?
Alexandre Campos - O clima de tensão e de incerteza do mercado americano vinha se exacerbando desde o último trimestre de 2007. Os grandes bancos americanos e europeus estavam apresentando prejuízos recordes, gerando incertezas com relação à solvência dessas instituições. Depois da queda da Bearn Stearns (em meados de abril de 2008), o menor dos titãs de Wall Street, que foi adquirido pelo grupo do JPMorganChase, o mercado começou a questionar a liquidez dos grandes bancos de investimento. Juntamente com a Bearn Stearns, o Lehman Brothers tinha se beneficiado com o crescimento nas operações lastreadas por hipotecas, e tornaram-se os líderes desse segmento do mercado. Com a crise de liquidez que levou o Bearn Stearns a uma fusão com o grupo JPMorgan, o mercado entrou numa crise de liquidez, e especialmente a Lehman Brothers começou a ter problemas em encontrar parceiros para rolar as dívidas de curto prazo. Já se esperava que o Lehman Brothers tivesse um final semelhante ao do Bearn Stearns. O mercado americano acreditava, e ainda acredita, que certas empresas são “muito grandes para quebrar” (GE, GM, Citibank, FannieMae, AIG) devido aos efeitos devastadores que um evento deste porte traz não só para o mercado americano, mas também para o mercado internacional. O Lehman Brothers, aparentemente, estava incluso entre essas empresas.
O POVO - Ficaram surpresos?
Campos - Causou surpresa pelo fato de ter sido anunciado durante o fim de semana em que os líderes do Bank of America, do Banco Barclays (inglês), e do próprio Lehman Brothers, juntamente com o alto escalão do Treasury Department e do Federal Reserve Bank, estavam reunidos finalizando a fusão entre a Lehman e um dos outros dois bancos. Porém, na segunda-feira a situação era outra. O Bank of America havia negociado a fusão com o Merril Lynch, e o Lehman estaria decretando falência. O resultado foi caos. Hoje todo o mercado concorda que foi uma péssima decisão da administração Bush deixar a Lehman Brothers quebrar.
O POVO - A raiz da crise acabou sendo atribuída ao setor imobiliário. Mas existem outros tipos de transações feitas instituições financeiras nos EUA que dão a ideia de que ‘tem alguma coisa errada’, como aconteceu com o crédito subprime?
Campos - Podemos dizer que a principal raiz da crise nada mais foi do que a ambição dos bancos que fomentaram o crescimento de operações financeiras, não muito transparentes, buscando somente crescimento de receitas e lucro, relevando a nível secundário a avaliação dos riscos potenciais trazidos por tais operações. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de reconhecer que também houve negligência por parte dos órgãos de supervisão e de controle do mercado financeiro estabelecidos pelo governo americano.
O POVO - Mas e o mercado de hipotecas?
Campos - Com certeza o pivô de toda a situação foi a erosão rápida e intensa no mercado hipotecário de crédito suprime, associado ao grande volume de operações estruturadas lastreadas por tais hipotecas. O mercado de securitização e operações estruturadas praticamente parou. Atualmente, o próprio governo americano está interessado em fomentar novas operações e revitalizar o mercado, porém os bancos e investidores ainda estão relutantes à ideia.
O POVO - Mas existem outros exageros?
Campos - Não creio que haja exageros, mas o mercado de “Credit Default Swaps”, que são operações onde se compra ou vende seguro contra a possibilidade de uma empresa não pagar suas dívidas, tem trazido muitos questionamentos ao mercado financeiro. O mercado para tais transações tem crescido de maneira vertiginosa, e ainda não existem órgãos que façam o controle e supervisão de tais operações ou mesmo uma câmara de compensação onde as operações possam ser realizadas, reduzindo assim a possibilidade de outra onda de descredibilidade.
O POVO - Como foi que se deu o “boom” do setor imobiliário?
Campos - Todos os bancos que tinham grande presença no mercado imobiliário começaram a apresentar grandes perdas em virtude do aumento de vítimas do efeito subprime. Os bancos, usando as mentes brilhantes dos engenheiros financeiros de Wall Street, criaram vários veículos de investimento lastreados por hipotecas. No momento em que as hipotecas deixam de ser pagas e se alastra a percepção da crise no setor imobiliário, os títulos lastreados por tais hipotecas começam a perder valor rapidamente, daí todos os investidores com esses papéis nas carteiras de investimento querem se desfazer dos mesmos, visando minimizar riscos e perdas financeiras. Em suma, é um verdadeiro “efeito dominó”.
O POVO - E como os americanos estão lidando com a questão das hipotecas?
Campos - Durante o “boom” do mercado imobiliário qualquer pessoa conseguia financiar um imóvel sem praticamente nenhum desembolso inicial de caixa. Era apenas uma questão de encontrar o imóvel dos sonhos. Pro financiamento sempre havia um “jeitinho”. A situação era tão absurda, que muitos bancos aumentavam o valor do financiamento do imóvel para que o comprador pudesse fazer reformas antes de entrar na casa. Sempre com a hipótese de valorização dos imóveis.
O POVO - Mas existem novas transações sendo feitas ou parou tudo?
Campos - O cenário mudou. A catástrofe financeira trouxe bom senso pra cabeça dos financiadores. Hoje os bancos e corretores de hipotecas estão muito mais cautelosos. Sem bom crédito e uma boa entrada - pelo menos 10% do valor do imóvel -, probabilidade de se conseguir qualquer tipo de financiamento é bem remota. Porém, com a crise geral que se instalou, existem muitos americanos sem emprego, sem recursos guardados em investimentos, a velha “poupança”, e ainda com problemas de crédito, uma vez que o consumismo da sociedade está atrelado aos excessos no uso do “dinheiro plástico”. Tudo isso faz com que seja difícil conseguir financiamento imobiliário, o que resulta em um grande estoque de propriedades disponíveis no mercado, o que gera depressão nos preços.
O POVO - Mas como deve ficar a relação de oferta X custo dos imóveis nos Estados Unidos?
Campos - A queda no mercado imobiliário foi significativa e não pode ser dissociada da crise do mercado subprime. Os financiamentos de hipotecas subprime eram feitos baseados na hipótese que de os preços continuariam crescendo de 10% a 20% ao ano. Uma vez que os preços começaram a cair significativamente, o caos começou. Os estados mais afetados foram Flórida, Nevada e Califórnia, onde existem áreas que registraram quedas nos preços de pelo menos 50%. Por exemplo, alguém que comprou e financiou uma casa que no topo do mercado por US$ 320 mil, hoje tem um imóvel valendo US$ 160 mil, sendo que continua responsável pelos pagamentos de uma hipoteca de US$ 320 mil. A tendência natural é que o mercado encontre o fundo desse ajuste e daí os preços vão se normalizar, porém sem esperança de que a curto e médio prazo eles voltem aos níveis de 2006, 2007.
O POVO - Como se dá a cobrança dessas hipotecas?
Campos - A cobrança é muito simples e semelhante ao sistema que temos no Brasil. Você assina a hipoteca, o banco envia um carnê todo ano com os 12 pagamentos. Se o financiamento for com uma taxa fixa, o valor da prestação é constante e só o que muda são os impostos que o banco vai pagar e cobrar do devedor. Assim, os impostos (tipo IPTU) são pagos pelo banco e repassados ao devedor junto com a prestação. Se o financiamento for com uma taxa variável, daí muda todo o valor da prestação e dos impostos que serão pagos. Vale ressaltar que as operações com taxas variáveis são as grandes responsáveis pelas perdas de imóveis.
O POVO - Mas as pessoas perdem mesmo suas casas?
Campos - Sim. Certas hipotecas estipulam que se o devedor atrasar uma prestação por mais de 60 dias, o imóvel pode ser retomado pelo banco. Se você atrasou, daí é só esperar a ordem de despejo. É triste, mais é a pura realidade. Além dos bancos estarem retomando os imóveis com inadimplência, muitas pessoas estão preferindo abandonar os imóveis com preços totalmente abaixo do mercado e prestações completamente fora do orçamento familiar, e voltar aos imóveis de aluguel, com um custo bem mais barato. Na Califórnia existem condomínios de casas desertos.
O POVO - Antes da crise estourar dava para ter a ideia de que em algum momento a coisa iria ficar sem controle?
Campos - Sempre existiram questionamentos com relação ao nível de preços dos imóveis. Nós sempre comentávamos quando o mercado faria uma correção. Para se ter uma idéia, um apartamento de quarto e sala aqui em Nova York, em um condomínio de luxo variava entre US$ 700 mil e US$ 1,5 milhão. Nós sempre nos perguntávamos quem, em um momento de total sanidade mental, pagaria US$ 1 milhão por um apartamento de quarto e sala com 60m². Mais era incrível, muitas vezes você saia para ver outros imóveis e quando tomava uma decisão alguém já havia dado uma entrada, ou às vezes começava uma disputa em que o vendedor se beneficiava com o preço subindo ainda mais.
O POVO - Por que ninguém fez nada?
Campos - Boa pergunta. Acho que todos se perguntam o mesmo hoje. Mas quando se vive no epicentro do capitalismo, com os bancos gerando lucros fenomenais, com o patrimônio individual dos americanos de alto poder aquisitivo crescendo, as pessoas consumindo, porque questionar o “status-quo”?
O POVO - E onde está todo esse dinheiro que circulou antes da crise através dessas transações?
Campos - Outra boa pergunta. Eu li um artigo na Business Week que analisava a atual situação do Merril Lynch, e que mostrava que o valor que se pagou em bônus nos últimos oito anos era maior do que o corrente valor de mercado da Merril. Acho que aí vai um bom começo para se saber onde foi parar o dinheiro...
O POVO - E quem ganhou mais dinheiro com as transações que deram origem a crise?
Campos - Acho que bancos de investimento, corretores de imóveis, corretores de hipotecas, administradores de fundos de investimentos, seguradoras. Como em qualquer jogo, o mercado financeiro tem ganhadores e perdedores e com certeza ainda tem gente lucrando com a situação, principalmente os investidores que tem respaldo financeiro e visão de longo prazo, pois existem muitas oportunidades hoje de comprar títulos a preços deprimidos, mais que irão se recuperar.
O POVO - Mudou o comportamento dos que atuam setor financeiro?
Campos - De uma certa maneira mudou. Infelizmente não para melhor. As pessoas se tornaram ainda mais competitivas. A crise de confiança, associada com a redução de credito, e um, certo limbo do ponto de vista de metas e objetivos para o futuro das instituições têm resultado em uma significativa redução no volume de transações, que se traduz em pouco trabalho e muitas pessoas qualificadas. Existe um clima de insegurança constante, os grandes bancos continuam demitindo em massa, existem muitas oportunidades para fusões no mercado, o que aumenta a possibilidade de mais cortes de pessoal. E ainda não se sente que a poeira sentou e tomamos um rumo.
O POVO - Já é possível sentir algum efeito dos pacotes anticrise bilionários do Bush e Obama?
Campos - Por enquanto ainda não existem vestígios de nenhuma melhora da situação. Continuamos a ver que existe pressão por parte do governo para que os bancos comecem a operar mais significativamente na concessão de crédito e também nas operações entre bancos.
O POVO - Quem teve perdas nos mercados em quanto tempo vai recuperar esse dinheiro?
Campos - Essa foi a pergunta mais difícil. Honestamente da maneira como o mercado vem reagindo ainda está muito difícil e incerto fazer qualquer tipo de projeção de longo prazo.
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A CEARÁ TRADE BRASIL continua firme no intuito de esclarecer sobre a crise financeira internacional, mas também segue em busca de alternativas, onde o empreendedorismo do nosso povo seja incentivado e onde o tempo negro seja dissipado, indo em busca de soluções e consequentemente de dias melhores, gerando emprego e renda e levando os produtos MADE IN BRAZIL para todo o mundo, aproveitando o vácuo dos países que estão em situação mais difícil que o Brasil.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Risco cambial pode limitar novos cortes ousados nos juros

Além da inflação e da atividade econômica, um terceiro fator de risco ganha visibilidade nas decisões de política monetária: a sustentabilidade do balanço de pagamentos. A preocupação do Banco Central é evitar que cortes exagerados na taxa básica de juros levem a desvalorizações cambiais como as observadas recentemente na Nova Zelândia, na Coreia do Sul e no México.
Para o BC, esses episódios mostram que ainda há limites para as políticas adotadas pelos países emergentes para combater a desaceleração econômica. Segundo essa visão, seria arriscado simplesmente reproduzir as estratégias adotadas pelas autoridades dos países desenvolvidos.
Até o início do ano, os mercados financeiros mundiais ainda premiavam países que fizeram cortes agressivos na taxa de juros. O estímulo monetário era visto como virtuoso, e as taxas de câmbio de um bom número de países registrou apreciação.
O Brasil, nesse período, vinha com uma estratégia monetária mais cautelosa. Em dezembro, o BC manteve os juros em 13,75% ao ano, apenas sinalizando que, na reunião seguinte, marcada para janeiro, iria iniciar o ciclo de distensão monetária - como de fato ocorreu, com uma baixa de 1 ponto percentual (pp.) na taxa Selic. Na semana passada, o BC fez mais um corte, de 1,5 pp., derrubando a taxa básica para 11,25% ao ano. Mesmo quando cortou os juros, porém, o BC fez questão de lembrar que suas decisões futuras dependeriam das perspectivas inflacionárias.
A visão do mercado financeiro sobre países que cortam rapidamente os juros teve uma mudança importante em 29 de janeiro. Nesse dia, a Nova Zelândia fez um corte de 1,5 pp. na sua taxa básica, de 5% para para 3,5% ao ano, maior do que o movimento de 1 pp. esperado pelos analistas econômicos. O mercado financeiro reagiu negativamente, e nos dois dias seguintes a cotação do dólar neozelandês perdeu 3,2% de seu valor ante a moeda americana. Na sua reunião seguinte, em 12 de março, a Nova Zelândia promoveu um corte mais modesto na sua taxa básica de juros, de apenas 0,5 pp.
O México é outro país que, a despeito dos prognósticos sombrios para seu crescimento econômico, vem enfrentando problemas para baixar sua taxa básica de juros. Em 20 de fevereiro, o BC mexicano cortou os juros básicos em apenas 0,25 pp., de 7,75% para 7,25% ao ano, num movimento mais modesto do que o 0,5 pp. esperados pelo mercado financeiro. No comunicado divulgado após a decisão, o BC local sinalizou que receava depreciações adicionais em sua moeda, o peso, que poderiam pressionar a inflação.
A Coreia do Sul também teve que enfrentar, desde fins de 2008, o dilema entre cortar mais os juros, o que estimularia a economia mas geraria mais depreciação cambial, ou produzir estímulos monetários mais contidos, olhando um pouco mais a inflação e um pouco menos o crescimento da economia.
Anteriormente, esses três países - Nova Zelândia, México e Coreia - já tinham registrado depreciação de suas moedas, em virtude do cenário menos favorável para suas exportações e o corte das linhas internacionais de financiamento. Mais recentemente o que se viu foi uma nova onda de depreciação, ligada às decisões de política monetária e ao maior risco de inflação.
Para o BC, esses países são apenas um indicativo do que pode acontecer se a dosagem da redução de juros no Brasil for exagerada. A situação de cada país, porém, é diferente. O Brasil, por exemplo, tem uma volume de reservas internacionais mais alentado que o México e uma pauta exportadora mais diversificada, tanto em termos de produto como destinos. Os juros nominais no Brasil são mais altos e, por isso, é menos provável que haja uma fuga de investidores para outras moedas em resposta a uma redução da taxa básica.
O calcanhar-de-aquiles no Brasil é que, historicamente, o volume de importações tem uma forte correlação com o consumo e os investimentos domésticos. Se os cortes de juros produzirem um estímulo exagerado sobre a demanda, a tendência é uma forte alta das importações. Nessa hipótese, para as contas externas fecharem, será necessário aumentar também as exportações - que, por sua vez, são bastante dependentes do crescimento da economia mundial. Haveria limites para financiar um maior déficit externo em um ambiente internacional de bastante incerteza. Para fazer a conta fechar, o remédio seriam novas rodadas de depreciação do real, pressionando a taxa de inflação.
O BC já fez vários estudos que mostram como as importações são fortemente correlacionadas com a demanda doméstica. Um deles, divulgado em 2002, mostra que uma alta de 1% no consumo e investimentos leva a um aumento de 1,2% nas importações. Os cálculos são de que um aumento de 1% no comércio mundial leva a um aumento de 0,44% no volume exportado. No caso da taxa de câmbio, uma desvalorização de 1% leva a um aumento de 0,14% nos embarques.
O Banco Santander calculou, com outra metodologia e números mais recentes, o impacto do crescimento da economia nas importações. Pelos seus cálculos, no curto prazo, ou seja, no período de um trimestre, uma expansão de 1% na demanda doméstica levaria a um aumento de 2,1% nas importações. Num prazo um pouco mais longo, o efeito total nas importações chega a 3,3%.
O economista-chefe do Santander, Alexandre Schwartsman, pondera que esse é apenas um cenário para a economia entre vários outros possíveis. "Esse cenário depende, em primeiro lugar, de que o estímulo monetário feito pelo BC vá de fato se transformar em aumento da demanda agregada", afirma o economista. "Há muita incerteza sobre como os cortes de juros vão chegar à atividade econômica.

Fonte: Valor Econômico - 16/03/09

quinta-feira, 12 de março de 2009

Todos dizem não - Excelente artigo sobre a persistência

Todos dizem não
26.02.2009

Na minha vida acumulei um monte de previsões negativas, mas aprendi a acreditar em mim e no meu coração

Empresário, vencedor do Prêmio Endeavor & Exame PME de Empreendedorismo e ex-palhaço de circoPublicidadePor Sidney Santos Revista EXAME
Acabo de nascer. Eu, já todo enroladinho como uma salsicha empanada (os bebês das décadas passadas eram mais moles e quebravam só de olhar), sou entregue à minha mãe. E o médico solta o diagnóstico e o prognóstico: "Mãe, dificilmente este menino irá andar, nasceu com um defeito no pé direito, todinho virado para baixo e para trás, e a senhora precisa estar ciente disso".


À minha mãe, então com 25 anos e mais três filhos, podia faltar ciência, mas sobravam vontade e amor. Ela não deu ouvidos ao doutor. Buscou outros e, com 2 meses, fiz minha primeira cirurgia corretiva; com 2 anos, outra; e aos 3 já andava arrastando um gesso que usei até os 4 anos. Hoje, meu pé direito é lindo. Pelo uso excessivo do gesso na fase em que minhas pernas estavam em formação, tenho algo único que chamo de pernas dos Robertos Carlos: a esquerda do jogador, a direita do cantor. O médico disse não. O tempo disse sim. Comecei a duvidar dos que dizem não, duvidar de previsões.

Aos 10 anos, eu na escola, e a doce tia Lina era mestre em previsões, regras e porquês. Um dia ela olhou para minha forma física e mandou: "O Sidney sempre será baixinho e magrinho, já o Marcelo Pinheiro será alto e forte". Fiquei louco com aquilo, que me condenava a ser pequeno e raquítico. Marcelo Pinheiro era louro, bonito, chegava a irritar. Anos atrás, encontrei Marcelo Pinheiro. Ele me chama, eu olho para trás e lá, uns 10 centímetros abaixo, estava o próprio. Ele não cresceu, ficou tarracudo, e eu, hoje no auge do meu
1 metro e 70, preciso perder uns 5 quilos. Tia Lina, sempre certa, errou. Estou começando a não gostar de previsões, das pessoas que dizem não.

Chega minha formatura da 8a série, a única que consegui fazer. Tenho 15 anos. Na volta da festinha, meu amigo Alex comenta: "O banco Boavista está pegando". Era assim que se falava quando estavam contratando alguém. No outro dia, 23 de dezembro, acordo às 5 da manhã, coloco minha única melhor roupa e digo à minha mãe que preciso ir em busca desse emprego. Ela briga comigo, fala que estou louco, que é Natal e que no Natal ninguém contrata. No dia 7 de janeiro de 1987, estou vestindo o uniforme de contínuo do Boavista. Minha mãe estava errada. Contratam no Natal, sim.

Um ano depois, após várias promoções no banco, vi que ser gerente seria bem chato e que esse não era o meu sonho. Um dia, após ser chamado pelo diretor financeiro de uma empresa nova no Brasil para trabalhar na cobrança deles, me aconselhei com a gerente Cristina, que previu: "Sidney, esses caras são novos aqui, podem ter problemas, e aí você fica sem emprego". A empresa? Parmalat. A Cristina até acertou. Mas errou a data, e como!

Fui trabalhar como estoquista numa loja de peças de motocicletas. Algum tempo depois, passo a balconista-vendedor e recebo uma oferta para ser representante de vendas de uma indústria de motopeças. Meu melhor amigo prevê: "Você vai trocar o certo pelo incerto, aqui você tem fixo, lá só comissão. É menor de idade, não tem habilitação. E se apreendem sua moto? E se isso e se aquilo?" Com toda a irresponsabilidade, fui e já em minha primeira visita na Moto Remasa faço uma venda que garante mais que meu salário anterior. Estou achando que esse negócio de previsão não é bom mesmo. E que todos sempre dizem não.

Após um ano de muito trabalho, vendas e comissões, resolvo montar minha própria empresa. Aí foi geral. Amigos, familiares, chefes, todos diziam não: "Mas você vai montar uma empresa como? Você não tem dinheiro. Não tem conhecimento. Não tem nem maioridade. Não tem noção. Você vai perder um ótimo emprego, sair de uma boa empresa e trocar pelo quê?"

Como num flash, relembrei daquela porção de nãos e previsões furadas. Então, eu, aquele menino de 17 anos que só ouvia nãos e previsões, abri a minha empresa, a primeira de muitas e bem-sucedidas. De 1989 para cá, acumulei mais um monte de nãos, mas aprendi a acreditar em uma coisa: atitude. É uma palavra maravilhosa, pois nela mora a decisão, que transforma o querer em fazer. Acredite em você e, principalmente, em seu coração.
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A CEARÁ TRADE BRASIL parabeniza o autor deste artigo por achar que hoje, mais do que nunca, os Brasileiros precisam de estímulo ao empreendedorismo, ao trabalho, à ética e ao esforço próprio.
Trabalhamos com exportações para pequenas e médias empresas e vemos o esforço delas para sobreviver com uma carga tributária tão elevada. Estimulamos a exportação como forma de levar a marca Brasil para o exterior e com isso termos o produto das mesmas em vários países mundo afora.
CEARÁ TRADE BRASIL - www.cearatradebrasil.com.br

quarta-feira, 11 de março de 2009

Algo errado com o câmbio?


Desde o início do Plano Real, o nível da taxa de câmbio tem despertado intenso debate nos meios acadêmicos e empresariais. Ao longo de quase 15 anos, a discussão tem se concentrado ora no diagnóstico quase consensual da necessidade de desvalorização do real (1995-1998), ora nos impactos das desvalorizações sobre o nível geral de preços (1999, 2002 e agora na atual crise econômica).
Esse texto propõe discutir o comportamento da taxa de câmbio do início do Plano Real até o final de 2008, localizando os principais momentos de apreciação ou depreciação da moeda nacional. O trabalho mostra, ainda, a construção de uma série histórica deflacionada da taxa de câmbio e sugere uma alternativa de correção dos efeitos da crise via esse instrumento.
De início considerado artificialmente sobrevalorizado, o câmbio cumpriu importante papel no controle dos preços e no choque de competitividade a que foram submetidos produtos brasileiros, não obstante a quase eliminação de setores industriais inteiros. Mais tarde, na medida em que as crises asiática e russa deram novos contornos à condução macroeconômica, o debate passou a se dar sobre a necessidade da desvalorização da moeda, algo que viria a ocorrer, de forma dramática, em janeiro de 1999.
Com o câmbio flutuante instaurado, encerra-se a estratégia de crescimento com poupança externa e ancoragem cambial, surgindo um novo arcabouço de política econômica, consubstanciado num tripé composto pelo regime de metas de inflação, superávit fiscal, além do próprio câmbio flexível. Mas não paramos por aqui.
Em 2002, um novo episódio de excessiva desvalorização cambial acabou gerando impactos importantes sobre a inflação, levando o IGP-M à espantosa marca de 25% no ano. Os motivos da crise cambial, desta feita, assumiam contornos políticos, dado o temor dos mercados com uma possível vitória de Lula. Mais recentemente, antes da crise internacional, voltou à ordem do dia essa discussão do valor do câmbio.
Uma grita geral do setor produtivo, bem como de acadêmicos mais à esquerda, pressionavam o governo com o argumento de que a forte apreciação ocorrida em 2007/2008 afetaria duramente as exportações, diante de relação de troca tão desfavorável. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra: agora vivemos situação oposta, após a maxidesvalorização imposta pela celeuma global, que faz surgir, novamente, o medo da inflação por repasse cambial. Mas qual seria a melhor taxa de câmbio nesse novo contexto? Existe uma taxa "de equilíbrio", como sonhariam os neoclássicos mais ferrenhos, ou "razoável", como pediria o senso comum?
A crise atual é bastante diferente das acima citadas. Sua origem não foram economias emergentes ou a situação política de algum país. O furo agora é na esfera da economia mundial, e tem como estopim a pouca regulação dos mercados financeiros e a farra do crédito. Podemos estar diante de uma crise do próprio paradigma político-institucional. Ademais, existe um temor com relação ao futuro da maior economia do globo e de como ela irá lidar com as elevadas taxas de desemprego, deflação e crescimento econômico. Em nosso país, por seu turno, o que a crise parece ensejar é o esgotamento do modelo econômico de juros estratosféricos para manter a inflação sob controle.
Para incrementar essa problematização, introduzimos a discussão sobre o comportamento do câmbio nominal e real. O primeiro é o valor da moeda no mercado de trocas de câmbio. Já a taxa de câmbio real é a razão entre a quantidade de bens e serviços que um agente poderá adquirir domesticamente pela quantidade de bens e serviços que adquirirá no exterior. A fórmula de cálculo inclui o câmbio nominal vezes a razão entre as variações de preços domésticos pelo exterior.
De início, calculamos a taxa média de câmbio, a preços atuais, desde a publicação do Plano Real, em julho de 1994. Como se trata de um período de tempo extenso e inflação elevada em alguns momentos, o uso da taxa nominal não nos parecia ser fidedigno. Desse modo, optamos por uma análise via taxa real, atualizando as taxas nominais pela inflação medida pelo IPCA, descontando-se a inflação americana, expressa pelo CPI (Consumer Price Index).
Na figura, as linhas tracejadas representam os valores médios para cada série. Percebe-se que a taxa real média de R$ 2,41 é muito próxima dos níveis atuais. Considerando-se o conceito de taxa nominal, o valor médio seria de R$ 1,92, inferior ao que se está praticando hoje. Todavia, ao considerar o importante diferencial entre as taxas de inflação americana e brasileira, concluímos que a taxa real é um parâmetro que exprime com maior acurácia o comportamento do câmbio no período.
A constatação de que o nível atual do câmbio se aproxima da média histórica do período reforça a ideia de um relativo status quo da competitividade internacional dos produtos brasileiros nos últimos anos. Essa conclusão permite inferir a possibilidade de uma ampliação do recente movimento de desvalorização do real, especialmente quando se considera que o impacto sobre o nível de preços pode ser perfeitamente absorvido pela redução do nível de atividade ora em curso.
Nesse sentido, a questão passa a ser qual seria o limite canônico de uma eventual desvalorização. O cálculo do desvio-padrão da série aponta para uma variação de R$ 0,7 em torno da média. Assim, uma taxa de R$ 3,11 (média mais desvio-padrão) estaria estatisticamente dentro dos padrões aceitos, patamar próximo da média verificada em 2004, ano de crescimento elevado do PIB e taxa de inflação sob controle.
Sendo assim, nossa sugestão é que a resposta estratégica do Brasil à crise deveria considerar experiências histórias recentes que demonstram a possibilidade de retomada do crescimento com taxas cambiais acima da média histórica do período e com inflação controlada. Desta forma, o BC poderia gradativamente reduzir a Selic para um patamar que contemple taxas reais abaixo de 6% ao ano., permitindo que o câmbio caminhe, de forma paulatina, numa trajetória mais favorável.
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Alexandre Espirito Santo é diretor do curso de RI da ESPM-RJ, economista da Way Investimentos.
João Boaventura Branco de Matos é especialista em regulação da ANS, doutorando IMS/UERJ e professor de Economia da ESPM-RJ. * Colaborou Maurício Espasandim Miranda.Fonte: Valor Econômico - 11/03/09

quarta-feira, 4 de março de 2009

O vento está a favor do Brasil - a CEARÁ TRADE BRASIL já investe na exportação de produtos brasileiros, na atração de investimentos para o Nordeste


Com mais visitantes estrangeiros no país e uma quantidaderecorde de brasileiros viajando a lazer, o setor turísticonão dá bola para a crise e cresce 20%
Sol, calor e CarnavalIlha de Itamaracá, em Pernambuco: neste Carnaval, os hotéis das praias ensolaradas do Nordeste têm índice médio de ocupação de 90%
A economia brasileira pode encolher sob os efeitos da crise mundial, mas o turismo do país está na contramão da maré de pessimismo. O setor vive uma bonança como fazia tempos não se via. Enquanto o fluxo de viajantes no mundo sofre uma retração – a ONU prevê uma queda de 2% em 2009 –, o turismo brasileiro cresceu 20% nos últimos quatro meses. Na base dessa expansão está a alta do dólar. Cotada a 1,59 real no primeiro semestre de 2008, a moeda americana chegou a 2,50 reais em dezembro. A desvalorização da moeda nacional teve dois efeitos. Primeiro, tornou-se mais vantajoso para os turistas de outros países visitar o Brasil. No ano passado, o país recebeu 200.000 estrangeiros a mais do que em 2007. Uma evidência do aumento desse fluxo está nas cidades litorâneas de Santa Catarina. Nos últimos anos, nas temporadas de verão, 70% dos hóspedes dos hotéis da região eram brasileiros e 30%, argentinos e uruguaios. Neste Carnaval, a divisão ficou em 50% para cada grupo.
A segunda consequência da alta do dólar é que muitos brasileiros, em vez de tirar férias no exterior, preferem viajar pelo país. Nos últimos quatro meses, a procura por pacotes turísticos internacionais caiu 30%. Em contrapartida, a agência de viagens que comercializa 70% dos pacotes turísticos domésticos, a CVC, vendeu 17% a mais em dezembro e janeiro últimos do que no mesmo período em 2007-2008. O aquecimento do turismo interno se reflete também no setor aéreo. Em janeiro, o número de voos domésticos aumentou 10%, enquanto aqueles com destino ao exterior diminuíram 8%. "Muitos brasileiros trocaram de itinerário por causa do câmbio", diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, Álvaro Bezerra de Mello.
Os turistas brasileiros que não se preocupam com a conta do cartão de crédito certamente continuarão a ir para Paris, Milão ou Nova York. Mas, em qualquer país, é a classe média que movimenta o setor turístico. Nos Estados Unidos, a indústria do turismo só se consolidou quando a massa de trabalhadores conquistou poder aquisitivo para viajar a lazer, nos anos 50. No Brasil, as empresas turísticas sabem que não podem abrir mão dessa clientela. Os navios de cruzeiros, que se popularizaram nos últimos anos com o dólar baixo, tratam agora de fazer promoções para segurar os clientes. Transportam gratuitamente o terceiro passageiro de um grupo, dão descontos para pacotes familiares e estão com o câmbio congelado a 1,99 real. Isso garantirá que fechem o verão com um número recorde de passageiros desde que surgiram em peso na costa brasileira, há oito anos.
A Fundação Getulio Vargas realiza mensalmente uma pesquisa sobre hábitos de consumo dos brasileiros, com 2 000 entrevistas. Em dezembro de 2007, o estudo apontou que 34% da população pretendia viajar a lazer no primeiro semestre do ano seguinte. No levantamento feito em dezembro de 2008, com a crise a pleno vapor, 39% dos entrevistados declararam a intenção de viajar em 2009. A análise da pesquisa mostra que o crescimento do turismo no Brasil pode não estar atrelado apenas ao câmbio, mas também a mudanças no próprio conceito de viagem turística. Diz o economista Luiz Gustavo Barbosa, coordenador do Núcleo de Estudos em Turismo e Hotelaria da FGV: "Se antes viajar era sinônimo de praia e sol, nesta década aumentaram as opções: turismo cultural, gastronômico, ecoturismo, aventura. Essa variação, aliada à popularização do transporte aéreo e à expansão do crédito, fez com que o turismo se tornasse acessível a um número muito maior de pessoas".
O turismo se diversificou, mas a principal revoada de viajantes neste verão destina-se mesmo às praias ensolaradas do Nordeste. Neste Carnaval, seus hotéis têm índice médio de ocupação de 90%. Na Bahia, de dezembro do ano passado a fevereiro deste ano, esse índice chegou a 84% – contra 72% no mesmo período em 2007-2008. Entre os pacotes turísticos mais vendidos, a liderança continua com Porto Seguro, na Bahia. Seguem-se, pela ordem, Salvador, Natal, Fortaleza, Maceió e Porto de Galinhas, em Pernambuco. Não há crise que segure a animação dos turistas brasileiros.

Veja Edição 2101

A crise mundial pode fortalecer o Brasil - Acreditando nisso, a CEARÁ TRADE BRASIL intensifica suas parceiras internacionais


A crise mundial é severa e, sabemos, com impacto profundo nas diferentes economias. Não podemos ignorar tal realidade, mas também a crise não pode imobilizar o País. Fomos postos à prova e devemos ser assertivos. Essa é a postura que os brasileiros esperam de suas lideranças.
A indústria não foge a esse compromisso. Nosso desafio não é apenas enfrentar os percalços inexoráveis de curto prazo - em termos de produção, emprego e renda -, mas, sobretudo, evitar um retrocesso (de viés mais permanente) na trajetória de crescimento nacional.
O Brasil interrompeu o ciclo de reformas estruturais que estava em andamento. Não cabe neste espaço discutir os motivos - de diferentes ordens e inspirações - que nos levaram a postergar discussões tão necessárias, como as novas e urgentes regras a pautar a relação capital-trabalho ou o perfil mais adequado à Previdência Social.
Precisamos retomar tal processo. A reforma tributária é outro tema de importância para a competitividade brasileira. Os partidos políticos representados no Congresso Nacional devem buscar o entendimento e aprovar, com urgência, o projeto aprovado na Comissão da Câmara, que simplifica o sistema de arrecadação de impostos e contempla a desoneração dos investimentos e das exportações.
A agenda das reformas inclui ainda uma nova revisão do regime de aposentadorias e pensões da Previdência Social e a modernização do sistema político.
É preciso também ter pressa com a adoção de medidas que melhorem o ambiente de negócios para as empresas. Isso requer definição de marcos regulatórios, delimitação de poderes e do papel das agências reguladoras e incentivos à inovação e às exportações.
O crescimento econômico do País depende ainda da retomada de investimentos em áreas essenciais como energia, transportes e saneamento básico.
Este é também o momento de reavaliar a política econômica e promover uma mudança no eixo da política macroeconômica. Impõe-se a necessidade de mudança da relação câmbio-juro. A prevalência de taxas de juros elevadas - de dois dígitos quando há muito a inflação recuou para apenas um dígito - é o exemplo maior. Ela conduziu à perda de competitividade dos produtos brasileiros, não apenas pelo nível da taxa de câmbio em si, mas também pelo ônus do elevado custo financeiro. A combinação juro alto e câmbio valorizado, dominante nos últimos dez anos, não é mais aceitável em um ambiente mundial recessivo e deflacionário.
A instabilidade originada pela crise mundial mudou o atual patamar do câmbio. Mas, passada a turbulência inicial, é necessário evitar a revalorização da moeda brasileira, vale dizer, praticar taxas de juros substancialmente menores que no passado.
Todavia, no médio prazo, combinar a mudança nos preços macroeconômicos com a manutenção de inflação controlada exigirá maior esforço fiscal, como a contenção nos gastos correntes de custeio e de pessoal.
Sem menosprezar os efeitos imediatos da recessão externa - que exigem ações emergenciais para minimizar a queda da atividade e suas consequências -, acreditamos ter diferenciais que permitirão ao Brasil sair fortalecido em relação aos demais mercados emergentes. Dispomos de recursos naturais abundantes, dominamos a tecnologia de produção de combustíveis renováveis e abrigamos um sistema financeiro sólido.
Indicadores de fevereiro mostram que, depois da forte queda no último trimestre de 2008, a atividade industrial começa a dar sinais de recuperação. O desempenho de alguns setores, como o automobilístico, confirma a previsão de que o ritmo de desaceleração da economia brasileira será inferior ao dos países desenvolvidos.
Não podemos perder mais essa oportunidade de consolidar as agendas do crescimento e da competitividade e preparar a economia brasileira para um novo salto. Discutir o longo prazo não é fugir à crise.
É o momento de preparar o País e as empresas para as transformações provocadas pelo novo cenário mundial. Com certeza, um conjunto de oportunidades diferenciadas se apresentará. Identificá-las e aproveitá-las será a chave do sucesso.
O Brasil e os empresários tiveram dinamismo e energia para superar outras turbulências e construir a décima economia do mundo. As experiências do passado e a implementação das reformas serão decisivas para sairmos desta crise e fazer o País retomar o caminho do crescimento.

Fonte: Gazeta Mercantil - 04/03/09