Translate/tradutor

sexta-feira, 20 de março de 2009

"A raiz foi a ambição dos bancos" - A CEARÁ TRADE BRASIL continua esclarecendo sobre a Crise Financeira Internacional


Economia
Entrevista

Encerrando a série de matérias sobre os seis meses da crise econômica mundial, o cearense Alexandre Campos, diretor de controladoria de um banco alemão com sede nos Estados Unidos, revela ao O POVO os bastidores do setor financeiro americano

Dalviane Pires da Redação20 Mar 2009

Aos 41 anos, o cearense Alexandre Campos, diretor de controladoria de um banco de investimento alemão com sede em Nova York, nos Estados Unidos, tem acompanhando a crise econômica mundial de dentro, na origem. Viu bem de perto o “boom” do setor imobiliário, com a supervalorização dos imóveis e as transações de alto risco realizadas por bancos e instituições financeiras no já conhecido crédito subprime. Viu também o valor desses imóveis cair pela metade, gente perder suas casas por não ter como pagar as prestações da hipoteca e um sistema financeiro caótico após operações inicialmente lucrativas. Campos fala ao O POVO sobre os bastidores do sistema financeiro norte-americano seis meses após o estopim da crise.
O POVO - No fim de semana da concordata do Lehman Brothers, acredito que as coisas no setor financeiro americano já estavam tensas. Como foi que vocês, que atuam diretamente nesse setor, receberam as primeiras notícias de quebradeiras e falências?
Alexandre Campos - O clima de tensão e de incerteza do mercado americano vinha se exacerbando desde o último trimestre de 2007. Os grandes bancos americanos e europeus estavam apresentando prejuízos recordes, gerando incertezas com relação à solvência dessas instituições. Depois da queda da Bearn Stearns (em meados de abril de 2008), o menor dos titãs de Wall Street, que foi adquirido pelo grupo do JPMorganChase, o mercado começou a questionar a liquidez dos grandes bancos de investimento. Juntamente com a Bearn Stearns, o Lehman Brothers tinha se beneficiado com o crescimento nas operações lastreadas por hipotecas, e tornaram-se os líderes desse segmento do mercado. Com a crise de liquidez que levou o Bearn Stearns a uma fusão com o grupo JPMorgan, o mercado entrou numa crise de liquidez, e especialmente a Lehman Brothers começou a ter problemas em encontrar parceiros para rolar as dívidas de curto prazo. Já se esperava que o Lehman Brothers tivesse um final semelhante ao do Bearn Stearns. O mercado americano acreditava, e ainda acredita, que certas empresas são “muito grandes para quebrar” (GE, GM, Citibank, FannieMae, AIG) devido aos efeitos devastadores que um evento deste porte traz não só para o mercado americano, mas também para o mercado internacional. O Lehman Brothers, aparentemente, estava incluso entre essas empresas.
O POVO - Ficaram surpresos?
Campos - Causou surpresa pelo fato de ter sido anunciado durante o fim de semana em que os líderes do Bank of America, do Banco Barclays (inglês), e do próprio Lehman Brothers, juntamente com o alto escalão do Treasury Department e do Federal Reserve Bank, estavam reunidos finalizando a fusão entre a Lehman e um dos outros dois bancos. Porém, na segunda-feira a situação era outra. O Bank of America havia negociado a fusão com o Merril Lynch, e o Lehman estaria decretando falência. O resultado foi caos. Hoje todo o mercado concorda que foi uma péssima decisão da administração Bush deixar a Lehman Brothers quebrar.
O POVO - A raiz da crise acabou sendo atribuída ao setor imobiliário. Mas existem outros tipos de transações feitas instituições financeiras nos EUA que dão a ideia de que ‘tem alguma coisa errada’, como aconteceu com o crédito subprime?
Campos - Podemos dizer que a principal raiz da crise nada mais foi do que a ambição dos bancos que fomentaram o crescimento de operações financeiras, não muito transparentes, buscando somente crescimento de receitas e lucro, relevando a nível secundário a avaliação dos riscos potenciais trazidos por tais operações. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de reconhecer que também houve negligência por parte dos órgãos de supervisão e de controle do mercado financeiro estabelecidos pelo governo americano.
O POVO - Mas e o mercado de hipotecas?
Campos - Com certeza o pivô de toda a situação foi a erosão rápida e intensa no mercado hipotecário de crédito suprime, associado ao grande volume de operações estruturadas lastreadas por tais hipotecas. O mercado de securitização e operações estruturadas praticamente parou. Atualmente, o próprio governo americano está interessado em fomentar novas operações e revitalizar o mercado, porém os bancos e investidores ainda estão relutantes à ideia.
O POVO - Mas existem outros exageros?
Campos - Não creio que haja exageros, mas o mercado de “Credit Default Swaps”, que são operações onde se compra ou vende seguro contra a possibilidade de uma empresa não pagar suas dívidas, tem trazido muitos questionamentos ao mercado financeiro. O mercado para tais transações tem crescido de maneira vertiginosa, e ainda não existem órgãos que façam o controle e supervisão de tais operações ou mesmo uma câmara de compensação onde as operações possam ser realizadas, reduzindo assim a possibilidade de outra onda de descredibilidade.
O POVO - Como foi que se deu o “boom” do setor imobiliário?
Campos - Todos os bancos que tinham grande presença no mercado imobiliário começaram a apresentar grandes perdas em virtude do aumento de vítimas do efeito subprime. Os bancos, usando as mentes brilhantes dos engenheiros financeiros de Wall Street, criaram vários veículos de investimento lastreados por hipotecas. No momento em que as hipotecas deixam de ser pagas e se alastra a percepção da crise no setor imobiliário, os títulos lastreados por tais hipotecas começam a perder valor rapidamente, daí todos os investidores com esses papéis nas carteiras de investimento querem se desfazer dos mesmos, visando minimizar riscos e perdas financeiras. Em suma, é um verdadeiro “efeito dominó”.
O POVO - E como os americanos estão lidando com a questão das hipotecas?
Campos - Durante o “boom” do mercado imobiliário qualquer pessoa conseguia financiar um imóvel sem praticamente nenhum desembolso inicial de caixa. Era apenas uma questão de encontrar o imóvel dos sonhos. Pro financiamento sempre havia um “jeitinho”. A situação era tão absurda, que muitos bancos aumentavam o valor do financiamento do imóvel para que o comprador pudesse fazer reformas antes de entrar na casa. Sempre com a hipótese de valorização dos imóveis.
O POVO - Mas existem novas transações sendo feitas ou parou tudo?
Campos - O cenário mudou. A catástrofe financeira trouxe bom senso pra cabeça dos financiadores. Hoje os bancos e corretores de hipotecas estão muito mais cautelosos. Sem bom crédito e uma boa entrada - pelo menos 10% do valor do imóvel -, probabilidade de se conseguir qualquer tipo de financiamento é bem remota. Porém, com a crise geral que se instalou, existem muitos americanos sem emprego, sem recursos guardados em investimentos, a velha “poupança”, e ainda com problemas de crédito, uma vez que o consumismo da sociedade está atrelado aos excessos no uso do “dinheiro plástico”. Tudo isso faz com que seja difícil conseguir financiamento imobiliário, o que resulta em um grande estoque de propriedades disponíveis no mercado, o que gera depressão nos preços.
O POVO - Mas como deve ficar a relação de oferta X custo dos imóveis nos Estados Unidos?
Campos - A queda no mercado imobiliário foi significativa e não pode ser dissociada da crise do mercado subprime. Os financiamentos de hipotecas subprime eram feitos baseados na hipótese que de os preços continuariam crescendo de 10% a 20% ao ano. Uma vez que os preços começaram a cair significativamente, o caos começou. Os estados mais afetados foram Flórida, Nevada e Califórnia, onde existem áreas que registraram quedas nos preços de pelo menos 50%. Por exemplo, alguém que comprou e financiou uma casa que no topo do mercado por US$ 320 mil, hoje tem um imóvel valendo US$ 160 mil, sendo que continua responsável pelos pagamentos de uma hipoteca de US$ 320 mil. A tendência natural é que o mercado encontre o fundo desse ajuste e daí os preços vão se normalizar, porém sem esperança de que a curto e médio prazo eles voltem aos níveis de 2006, 2007.
O POVO - Como se dá a cobrança dessas hipotecas?
Campos - A cobrança é muito simples e semelhante ao sistema que temos no Brasil. Você assina a hipoteca, o banco envia um carnê todo ano com os 12 pagamentos. Se o financiamento for com uma taxa fixa, o valor da prestação é constante e só o que muda são os impostos que o banco vai pagar e cobrar do devedor. Assim, os impostos (tipo IPTU) são pagos pelo banco e repassados ao devedor junto com a prestação. Se o financiamento for com uma taxa variável, daí muda todo o valor da prestação e dos impostos que serão pagos. Vale ressaltar que as operações com taxas variáveis são as grandes responsáveis pelas perdas de imóveis.
O POVO - Mas as pessoas perdem mesmo suas casas?
Campos - Sim. Certas hipotecas estipulam que se o devedor atrasar uma prestação por mais de 60 dias, o imóvel pode ser retomado pelo banco. Se você atrasou, daí é só esperar a ordem de despejo. É triste, mais é a pura realidade. Além dos bancos estarem retomando os imóveis com inadimplência, muitas pessoas estão preferindo abandonar os imóveis com preços totalmente abaixo do mercado e prestações completamente fora do orçamento familiar, e voltar aos imóveis de aluguel, com um custo bem mais barato. Na Califórnia existem condomínios de casas desertos.
O POVO - Antes da crise estourar dava para ter a ideia de que em algum momento a coisa iria ficar sem controle?
Campos - Sempre existiram questionamentos com relação ao nível de preços dos imóveis. Nós sempre comentávamos quando o mercado faria uma correção. Para se ter uma idéia, um apartamento de quarto e sala aqui em Nova York, em um condomínio de luxo variava entre US$ 700 mil e US$ 1,5 milhão. Nós sempre nos perguntávamos quem, em um momento de total sanidade mental, pagaria US$ 1 milhão por um apartamento de quarto e sala com 60m². Mais era incrível, muitas vezes você saia para ver outros imóveis e quando tomava uma decisão alguém já havia dado uma entrada, ou às vezes começava uma disputa em que o vendedor se beneficiava com o preço subindo ainda mais.
O POVO - Por que ninguém fez nada?
Campos - Boa pergunta. Acho que todos se perguntam o mesmo hoje. Mas quando se vive no epicentro do capitalismo, com os bancos gerando lucros fenomenais, com o patrimônio individual dos americanos de alto poder aquisitivo crescendo, as pessoas consumindo, porque questionar o “status-quo”?
O POVO - E onde está todo esse dinheiro que circulou antes da crise através dessas transações?
Campos - Outra boa pergunta. Eu li um artigo na Business Week que analisava a atual situação do Merril Lynch, e que mostrava que o valor que se pagou em bônus nos últimos oito anos era maior do que o corrente valor de mercado da Merril. Acho que aí vai um bom começo para se saber onde foi parar o dinheiro...
O POVO - E quem ganhou mais dinheiro com as transações que deram origem a crise?
Campos - Acho que bancos de investimento, corretores de imóveis, corretores de hipotecas, administradores de fundos de investimentos, seguradoras. Como em qualquer jogo, o mercado financeiro tem ganhadores e perdedores e com certeza ainda tem gente lucrando com a situação, principalmente os investidores que tem respaldo financeiro e visão de longo prazo, pois existem muitas oportunidades hoje de comprar títulos a preços deprimidos, mais que irão se recuperar.
O POVO - Mudou o comportamento dos que atuam setor financeiro?
Campos - De uma certa maneira mudou. Infelizmente não para melhor. As pessoas se tornaram ainda mais competitivas. A crise de confiança, associada com a redução de credito, e um, certo limbo do ponto de vista de metas e objetivos para o futuro das instituições têm resultado em uma significativa redução no volume de transações, que se traduz em pouco trabalho e muitas pessoas qualificadas. Existe um clima de insegurança constante, os grandes bancos continuam demitindo em massa, existem muitas oportunidades para fusões no mercado, o que aumenta a possibilidade de mais cortes de pessoal. E ainda não se sente que a poeira sentou e tomamos um rumo.
O POVO - Já é possível sentir algum efeito dos pacotes anticrise bilionários do Bush e Obama?
Campos - Por enquanto ainda não existem vestígios de nenhuma melhora da situação. Continuamos a ver que existe pressão por parte do governo para que os bancos comecem a operar mais significativamente na concessão de crédito e também nas operações entre bancos.
O POVO - Quem teve perdas nos mercados em quanto tempo vai recuperar esse dinheiro?
Campos - Essa foi a pergunta mais difícil. Honestamente da maneira como o mercado vem reagindo ainda está muito difícil e incerto fazer qualquer tipo de projeção de longo prazo.
__________________________________________________________
A CEARÁ TRADE BRASIL continua firme no intuito de esclarecer sobre a crise financeira internacional, mas também segue em busca de alternativas, onde o empreendedorismo do nosso povo seja incentivado e onde o tempo negro seja dissipado, indo em busca de soluções e consequentemente de dias melhores, gerando emprego e renda e levando os produtos MADE IN BRAZIL para todo o mundo, aproveitando o vácuo dos países que estão em situação mais difícil que o Brasil.

Nenhum comentário: