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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Uma enxurrada de importados

Quando a crise internacional traz para Brasil e Argentina o fantasma da invasão de produtos importados (aqueles que os americanos não vão mais comprar), o primeiro país que vem à tona como ameaça é a China. No entanto, em médio prazo, os próprios Estados Unidos podem vir a se tornar uma pressão no campo comercial para todo Mercosul, quando começar a sair de sua crise. O alerta é do economista sênior do Instituto de Integração do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Intal/BID), o brasileiro Uziel Nogueira.
Por enquanto, os EUA estão tentando pôr "ordem na casa", depois da quebradeira de bancos e indústrias automobilísticas, disparada no ano passado e que pelo visto, com a agonia da General Motors, ainda não terminou. Uziel diz que, quando esse processo terminar, os americanos terão dois caminhos para estabilizar sua economia: 1) seguir com o mesmo modelo de financiamento dos déficits comerciais e fiscais por outros países (pouquíssimo provável); 2) aumentar as exportações.
Para o economista, os EUA terão poucas chances de recuperação dentro de seu mercado interno, porque os consumidores estão atolados em dívidas - US$ 14 trilhões para um Produto Interno Bruto de US$ 15 trilhões. E sequer poderiam fazer um programa estilo Minha Casa, do governo brasileiro, para estimular o setor da construção civil, já que a crise hipotecária deixou 20 milhões de imóveis devolvidos por falta de pagamento.
A saída para fazer caixa será exportar cada vez mais e, na verdade, as exportações americanas para a América Latina em geral, e o Mercosul em particular, já vinham crescendo fortemente, como se pode ver no gráfico abaixo, com dados disponíveis até 2007. De acordo com o relatório "CSR Report for Congress", sobre tendências do comércio internacional, de J.F. Hornbeck e Marisabel Cid, da Divisão de Assuntos Estrangeiros, Defesa e Comércio do Congresso americano, a América Latina é a segunda região de maior expansão das exportações americanas - só fica atrás da África. No período 1996-2007, a corrente de comércio americana para a América Latina cresceu 137%, 110% para a Ásia, 114% para a União Europeia e 294% para a África. O crescimento para o mundo como um todo foi de 120%.
"Houve mudança de paradigma", diz Nogueira. "Os americanos eram os consumidores de última instância de todo mundo, e dessa forma alimentaram a expansão econômica de todos os países asiáticos. Isso acabou." A pressão americana pela abertura de mercados deve atingir, na visão do economista, setores industriais, como automóveis e máquinas. E vai se somar à pressão chinesa pela abertura de produtos de consumo, como têxteis e calçados.
O impacto de um esforço exportador americano sobre a América Latina será sentido de maneira distinta. Enquanto o Mercosul dispõe (mal ou bem) de um arcabouço de medidas para proteger seus mercados de concorrências desleais ou de movimentos que causem dano às economias internas, seguindo as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), outros países não terão muito o que fazer. É o caso do México, Chile e Peru, que têm tratados de livre comércio com os EUA que os impedem de usar os mecanismos da OMC contra as exportações americanas.
"Todos os países vão aumentar suas exportações, não só os EUA", opina o argentino Felix Peña, especialista em relações econômicas internacionais. Para Peña, não há dúvida de que os EUA "vão fazer todo o necessário para aumentar suas exportações" assim que saírem da crise, mas isso é apenas um lado da história. O outro lado é que o comércio internacional estará menor e muito mais disputado. Peña acha que o Mercosul está preparado para enfrentar a pressão do comércio, mas não para uma ofensiva competitiva. Nesse âmbito, em que hoje cada país faz seus próprios avanços em separado, ele acha que eles teriam melhor resultado se somassem esforços para encontrar novos mercados, utilizando instituições de promoção, como a brasileira Apex e a argentina ExportAr, e as ferramentas de inteligência comercial existentes em cada um.
Dupla cobrança da TEC
Falta pouco para que o Mercosul anuncie o fim da dupla cobrança da Tarifa Externa Comum (TEC) em suas fronteiras. Segundo o embaixador Regis Arslanian, titular da delegação brasileira junto ao Mercosul e à Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), baseada em Montevidéu, a expectativa é que o projeto que termina com a dupla cobrança seja aprovado até a próxima reunião de cúpula do Mercosul, em Assunção, marcada para a primeira semana de julho.
"A parte mais trabalhosa está pronta", disse Arslanian, referindo-se à infraestrutura tecnológica, que permitirá a identificação de um produto que já pagou tarifa de importação para entrar no bloco e liberá-lo para circular entre os outros países membros. O grande desafio agora é arbitrar uma fórmula para evitar que o Paraguai perca receitas aduaneiras com o novo sistema. Único país do bloco que não tem saída ao mar, o Paraguai, hoje, arrecada cerca de US$ 150 milhões com a TEC.

Fonte: Valor Econômico - 28/05/09

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A crise financeira e o câmbio

Por Márcio Holland*

Geralmente, em crises financeiras internacionais anteriores, as taxas de câmbio em economias emergentes como a brasileira sofriam intensas desvalorizações. Essas crises financeiras podiam provocar crises cambiais, com consequências muito ruins para toda a economia, sempre com elevações nas taxas de juros domésticas e queda no produto interno. Havia, na verdade, uma perversa combinação de crises financeiras, com crises cambiais, bancárias e crises de dívida. Afinal, empresas e governos nestas economias estavam sempre financeiramente fragilizados, com elevadas dívidas internas e externas, denominadas em moedas estrangeiras, com baixo nível de reservas cambiais e sistemas bancários ainda não completamente consolidados.
Não somente crises financeiras em economias avançadas, como a crise do Sistema Monetário Europeu (1992), o de hedge funds (LTCM, 1998), o estouro do bolha do Nasdaq (2000/2001), entre outros, mas também crises nas próprias economias emergentes (México, Rússia, Ásia e Argentina, por exemplo) afetavam diretamente o comportamento da taxa de câmbio no Brasil; e quase sempre em movimento de sobredesvalorização (overshooting cambial). Parece não ser o caso desta vez, mesmo uma profunda crise financeira internacional, comparável à Grande Depressão de 1930. O gráfico mostra claramente que as alterações na taxa de câmbio no Brasil foram muito maiores na crise cambial de 1999 e na crise de confiança da política econômica de 2002 do que na crise financeira corrente.
A crise financeira atual, que teve início em agosto de 2007, provocou desvalorização do real somente após meados de 2008, quando a tendência à apreciação se reverte e passa por uma desvalorização nominal de, aproximadamente, 43% em apenas oito meses, de agosto de 2008 até março de 2009. Seria esta desvalorização nominal grande o suficiente? Esses 43% logo vão se mostrar pouco perante nossas contas. Mais interesse é o fato de que, não somente as taxas de juros vêm caindo, como também nossa moeda doméstica revaloriza de março para abril de 2009.
Neste caso, é preciso observar também as desvalorizações que acontecem mundo afora. Por isso, vale analisar, com ajuda do gráfico, o comportamento da taxa de câmbio real e efetiva, ou seja, descontando inflação e considerando uma cesta de moedas relevantes para o nosso comércio exterior. Assim, nestes termos, a taxa de câmbio se desvalorizou apenas 6,5%, logo após agosto de 2007 até março de 2009, chegando incrivelmente a se valorizar entre agosto de 2007 e agosto de 2008, em algo em torno de 12%, já sob forte crise mundial. Destaco que o próprio dólar americano se valorizou em relação ao cesta de moedas, próximo a 10% , desde agosto de 2008. Ou seja, não seria a nossa valorização do real apenas uma contraface de tal revalorização do dólar?
Contudo, com o segundo momento da crise, em agosto de 2008, o real passa por uma forte desvalorização não somente nominal, mas também real e efetiva na ordem de 18,5%. Muitos números e um só ponto: que a nossa moeda desvaloriza menos ainda do que tinha se valorizado ao longo dos cinco anos.
Em síntese, aqueles 43% de desvalorização nominal representou algo em torno de 18,5% de desvalorização real e efetiva, provavelmente porque muitas outras moedas também se desvalorizaram mundo afora, como, por exemplo, o peso mexicano, o rubro russo e a libra esterlina. Ou seja, nossa moeda se desvaloriza quando a de outros países também.
Será que tal desvalorização cambial, qualquer que seja ela, teria sido suficiente para trazer a taxa de câmbio para algum nível de equilíbrio de longo prazo? Ou mesmo, será que a crise financeira internacional teria facilitado o trabalho do Banco Central do Brasil e corrigido a distorção da paridade cambial manifestadas por um longo período de tempo no Brasil?
Certamente, o maior problema que se apresenta aqui é saber qual é taxa de câmbio de equilíbrio de longo prazo. Afinal, quando se afirma que uma moeda está ou não desvalorizada surgem problemas como: em relação à que taxa de câmbio? Ou mesmo, em relação a quando? Os economistas normalmente dizem que a moeda está ou não desvalorizada, mas eles não sabem qual seria a taxa de equilíbrio fundamental de longo prazo. Noutras palavras, se a taxa de câmbio vigente nos últimos dois meses - março e abril de 2009 - em torno de R$ 2,30 por dólar, é a verdadeira taxa de câmbio só saberemos daqui alguns anos. É sempre um problema de sabedoria ex-post.
Tudo indica, contudo, que o movimento recente de desvalorização cambial levando a taxa nominal de câmbio para próximo a R$ 2,30 por dólar, média de fevereiro a abril de 2009, ainda não teria sido suficiente para a devida correção, dada a intensa apreciação verificada até antes de agosto de 2008.
Assim, algo de surpreendente acontece no Brasil. Uma crise financeira internacional severa e prolongada não provoca a desvalorização excessiva da moeda doméstica, pelo menos quase 20 meses depois de seu estouro. Ou ainda não fomos atingidos em cheio pela crise, conforme a história nos ensina que deveria ser, ou realmente, algo de novo acontece no mundo das finanças internacionais.
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*Márcio Holland é professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV (FGV-EESP) e pesquisador CNPq.
Fonte: Valor Econômico - 08/05/09