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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Do Norte-Sul ao Sul-Sul



A estrutura internacional vem se movendo com os ventos da crise econômica global. Baixa de crescimento econômico desde os fins do ano de 2007, quebra de bancos que iniciaram em 2008 e a lentidão da recuperação nos Estados Unidos e na Europa no ocaso do ano de 2012. A história já pode classificar essa conjuntura: é uma quadra marcada por temporalidade depressiva na vida das nações avançadas.

As relações internacionais, tradicionalmente dirigidas pelas potências clássicas, tanto no campo da economia política quanto no da segurança mundial, se acostumaram à ideia do seguro porto do Norte. O que se vê agora é a insegurança na atracação desses países do Norte.

As transformações estruturais da última década puxou o mapa econômico global para o Sul e para o Pacífico. As velhas relações assimétricas, herdadas das formas anteriores de colonialismo, ou chamadas de Norte-Sul, inverteram o fluxo. A elevação do preço das commodities minerais e agrícolas, a produtividade crescente de produtos e as novas formas de crescimento econômico no Sul animaram as ex-colônias. A África, de 2001 a 2011, cresceu na média de 5,55% nos produtos internos brutos a cada ano daquela quadra. Mudou o quadro geral daquele continente.

A tradicional cooperação para o desenvolvimento, acostumada à métrica da distribuição de esmolas e sacos de alimentos para sociedades flageladas na África e na Ásia, cedeu lugar a outra forma de cooperação entre os países em desenvolvimento na parte inferior da linha do Equador. Emergiu a cooperação Sul-Sul, como aquela que o Brasil pratica para países do lado atlântico e sul-americano de suas fronteiras.

Quais as características dessas novas formas de cooperação internacional para o desenvolvimento? Qual a agenda específica da cooperação Sul-Sul?

As respostas a essas perguntas não possuem ainda respostas seguras, mas algo já se desenha na nova estrutura da cooperação Sul-Sul. Uma deriva da emergência dos Brics em relação ao G7. Os primeiros já são responsáveis por cerca de 50% do crescimento mundial, enquanto as sete economias centrais reduzem sua contribuição ao crescimento global a 15%. Há, portanto, recursos no Sul para serem utilizados nos países mais vulneráveis no próprio Sul. Isso é novo.

Em segundo lugar a cooperação Sul-Sul rompe o antigo binômio doador-receptor da ajuda internacional. Agora há o Sul doador. Envolve a nova cooperação entre os países emergentes a ideia de contribuir ao desenvolvimento inclusivo e não a velha ajuda do Norte nas formas de migalhas e esmolas. O Brasil, país já classificado como PRM (País de Renda Média), tem todas as condições para agir nesse campo. Pode ajudar aos mais vulneráveis na África enquanto ajuda os mais fracos dentro do nosso próprio país.

José Flávio Sombra Saraiva
 fsaraiva@unb.br
PhD pela Universidade de Birmingham e prof. titular de Relações Internacionais da UnB

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