A grande crise financeira
de 2008, com o colapso do Lehman Brothers desencadeou um fenômeno com múltiplas
dimensões. A crise e o quase colapso do sistema financeiro são o núcleo de uma
erupção vulcânica que desencadeou a chamada Grande Recessão de 2008/09, seguida
da crise de dívidas soberanas na Europa e causaram uma série de outras mudanças
paradigmáticas.
As economias dos Estados
Unidos e da Europa saíram da normalidade e passaram a ser regidas por
comportamentos induzidos por incerteza, medo, contágios, pânicos e corridas,
com mudanças súbitas de humor, de aversão ao risco e das convenções nas quais
se baseiam as decisões financeiras e econômicas.
Pela experiência
histórica, a crise de 1930 e a crise do Japão nos anos 1990, a única lógica ou
elemento racional que prevalecem neste caso é a lógica da desalavancagem, em
que os agentes econômicos, que se endividaram na fase anterior de boom de
crédito, que precede toda crise financeira, têm agora de pagar as dívidas e
limpar seus balanços, num contexto em que seus ativos perderam valor ou viraram
pó.
Este processo gera a
chamada "balance sheet recession". As famílias terão que aumentar a
poupança ao longo dos próximos anos para pagarem a dívida, reequilibrar seus
balanço. Mas, para isso, terão que reduzir o consumo, provocando recessão e
desemprego.
Diante da recessão e desemprego,
as empresas, mesmo tendo lucro, em vez de investirem para ampliar a capacidade
produtiva, preferirão pagar suas dívidas para limpar os balanços. Os bancos
terão que se desalavancar, em sucessivas rodadas, na medida em que se desfazem
de seus ativos para reduzir seus passivos. Esse processo causa a desvalorização
dos ativos, gerando a necessidade de novas desalavancagens.
Foi assim que, em 1929,
os Estados Unidos levaram uma década para superar a crise. O Japão levou pelo
menos uma década e meia para livrar-se dos problemas financeiros que eclodiram
em 1989. A atual crise financeira não será diferente. Vai levar mais uma década
para que seja superada e a normalidade restaurada. Haverá avanços e recuos nas
economias desenvolvidas, mas elas permanecerão semiestagnadas ou com
crescimento rastejante.
A atual contração
econômica decorre do estouro de uma superbolha financeira. Desde os anos 1980,
quando se inicia o período de desregulação financeira, as inovações geraram um
superboom de crédito e sucessivas bolhas. A cada estouro, o sistema financeiro
ou os países, com crises de "sudden stops", foram socorridos
ampliando-se a liquidez e o crédito, o que manteve ficticiamente o valor dos
ativos financeiros para, finalmente, a crise do subprime de 2007 desencadear a
grande crise financeira de 2007/08.
Tanto as intervenções dos
bancos centrais como dos Tesouros Nacionais não têm resolvido o problema real
de solvência dos devedores, limitando-se a prover liquidez, a taxa de juros
subsidiadas, e transferir ativos financeiros problemáticos para seus balanços.
Se este processo de
subsídio e de manutenção dos ativos financeiros problemáticos nos balanços do
governo perdurar por mais uma década é possível que as algumas instituições
credoras consigam sobreviver. Na realidade, com a fantástica expansão
monetária, os sucessivos afrouxamento - o "quantitative easing" - e
aquisições de ativos problemáticos, o Federal Reserve (Fed, banco central
americano) e o Banco Central Europeu (BCE) estão agindo como se estivessem reestabelecendo
a situação prévia a crise, com a manutenção dos ativos financeiros nos balanços
dos bancos não a valor de mercado, mas a preços ficticiamente avaliados pela
explosão monetária e creditícia sem precedentes.
A dura realidade é que a
própria crise financeira já tornou transparente que a maioria destes ativos
financeiros tem valor fictício, pois alguns créditos eram Ponzi, outros eram
garantidos por outros títulos que evaporaram e só uma pequena parte tem garantia
em produção ou renda futura.
Outra consequência
inevitável das crises financeiras é que elas se iniciam com a insolvência de
dívidas do setor privado e rapidamente se convertem em déficit, dívida pública
e, em seguida, crise do setor público. Atualmente, isso está sendo sentido de
forma mais aguda na Europa com a crise das dívidas soberanas.
A adoção da moeda única
na Europa criou um problema adicional: sem a prévia integração dos mercados de
trabalho e sistemas previdenciários, que continuam nacionais, a mobilidade do
emprego é restrita. Assim, o custo unitário do trabalho tornou-se muito elevado
nos países orientados para a expansão de serviços não negociáveis (Grécia,
Portugal, Espanha etc) comparativamente aos países do norte da Europa, que
cresceram com a expansão da indústria e produtos "tradables", onde os
ganhos de produtividade foram muito maiores e obrigatórios para enfrentar a
competição.
A Alemanha, por exemplo,
onde a indústria representa 30% do Produto Interno Bruto (PIB), e
transformou-se em grande exportador líquido, enquanto a Grécia, na onda da
entrada de capitais, se endividou excessivamente e não tem hoje como pagar as
dívidas. É o velho problema da dupla transferência de renda.
Sem a intervenção do
Estado, o sistema financeiro europeu e americano teria praticamente
desaparecido
O forte ajuste fiscal
torna-se obrigatório para reduzir o déficit, a dívida pública e a
desvalorização cambial, aumentando o desemprego, a fim de reduzir os salários e
preços em euros, reequilibrar o setor externo e promover a transferência
externa, ou seja, pagar sua dívida externa.
Muitos acreditam que esta
crise levará à dissolução do euro ou, pelo menos, à saída da Grécia, Espanha e,
eventualmente, outros países. Não acredito nesta hipótese, pois a integração europeia
é antes de tudo um projeto político, e a vontade política é muito forte e
dominante neste processo. A opção será por um longo e prolongado ajuste dos
países do sul da Europa que deverá levar ainda década de crise profunda e
reformas.
Num quadro de crise
financeira prevalece a incerteza e o longo prazo é imprevisível. Na incerteza,
como dizia Keynes, para tomar decisões é preciso aceitar "convenções"
e basear-se nelas para "arriscar previsões". Ao invés de arriscar
previsões de curto prazo, este texto tenta perceber as grandes rupturas e
tendências históricas, tanto no pensamento dominante, como na dinâmica global
da economia mundial. Vamos detectar os deslocamento das forças dominantes que
comandarão a economia global e que poderão representar grande oportunidades
para o Brasil deixar de ser um país dependente e coadjuvante e se tornar
autônomo, ter um projeto próprio de "catching up" e ser protagonista
de seu futuro.
Toda a crise financeira
profunda e duradoura desencadeia crise política e social. Rompe-se o consenso
ou acordo que prevalecia previamente e o poder hegemônico perde legitimidade e
se enfraquece. Na economia, os regimes de política econômica, as instituições,
a ideologia e o pensamento econômico que as organizam e sustentam, tornam-se disfuncionais,
exigindo constante e crescente intervenção do Estado.
O paradigma liberalizante
que vigorava desde 1980 entrou em crise e passou a ser questionado pelos fatos,
pela necessidade de respostas pragmáticas e rápidas do governo para salvar o
sistema. A insatisfação politica da população e a inquietação social é
crescente. A ortodoxia econômica envelheceu subitamente e tornou-se
disfuncional diante dos fatos, abrindo espaço para novas ideias. A conservadora
revista "The Economist" resume a atmosfera do famoso encontro de
Jackson Hole, deste ano, onde os banqueiros centrais e os maiores experts
acadêmicos em política monetária se reúnem anualmente oferecendo diagnósticos e
políticas alternativas - mas todos eram presas de um fato embaraçoso: "Nada
do que eles tinham feito funcionou, e eles não sabiam porque".
Com a ascensão do
neoliberalismo, a partir dos anos 1980, o mercado transformou-se no princípio
dominante de organização da economia capitalista, com retração da função
Estado. Entretanto, com a crise, se não fosse a massiva intervenção e socorro
prestado pelo Estado todo o sistema financeiro americano e europeu teria
praticamente desaparecido. Para a sobrevivência do próprio capitalismo, o
Estado-nação está retomando a sua função reguladora e controladora dos
mercados, num processo adaptativo, diante da ameaça maior da crise.
Esse deslocamento e
processo adaptativo entre mercado e Estado, num novo ambiente desencadeado pela
própria crise, levará anos para estabelecer um novo paradigma. A plutocracia financeira,
ainda com poder formidável, sofreu baque mortal, mas vem resistindo ao avanço
da regulação e dos controles pelo estado. Além disso, as mentes humanas são
presas de velhos ideias e levam muito tempo para serem mudadas.
Entretanto, quanto maior
for a resistência e o período de dominância das velhas ideias e do mercado
livre como princípio de organização da economia, maior será a crise necessária
para que o princípio adaptativo funcione e reestabeleça a nova ordem. Nos
Estados Unidos, ainda em 2008, o governo republicano, defensor da ideologia
neoliberal, teve que reagir reduzindo os impostos e aumentando os gastos para
salvar o sistema financeiro, praticando a política de recuperar a demanda
agregada, ainda que contra o seu credo.
Com o aumento do déficit
e da dívida públicos, veio a reação subsequente com ascensão politica da ala
mais conservadora dos republicanos, que poderá travar o instrumento fiscal, com
grande risco de um segundo mergulho da economia americana. Tanto é que os
jornais já anunciam a possibilidade de um "abismo fiscal", a partir
de 31 de dezembro. Se não houver um novo acordo entre democratas e
republicanos, difícil num ano de eleição, e se não forem renovadas as medidas
adotadas anteriormente de redução de imposto e aumento de gastos fiscais,
teremos uma contração fiscal correspondente a 3,5% do PIB, o que levará a
economia americana a nova recessão.
Com o deslocamento pela
crise do mercado para o Estado, a ascensão econômica e política da China ganha
novo significado como o candidato natural para ser o novo paradigma econômico
dominante, um novo capitalismo de Estado, em substituição ao modelo da
liberalização global.
Nos próximos anos, tanto
os Estados Unidos como a Europa deverão ter como prioridade absoluta a
revitalização das suas economias, voltando-se para dentro. Somada a isso, com a
perda de credibilidade e de legitimidade da sua classe dirigente, a governança
global mudará radicalmente. Desta forma, viveremos, nas próximas décadas, um
interregno hegemônico, com a ausência de um centro que dite as regras do jogo,
exerça dominância política e ideológica, imponha um pensamento econômico e atue
como policial do mundo.
Neste quadro, novos
atores estão ganhando autonomia e poder global, como os países do grupo dos
Brics, por exemplo; outros fóruns estão surgindo, como o G-20; e coalizões de
forças políticas estão se formando. É isto que construirá uma nova ordem
internacional.
Nesse quadro, conceitos
como soberania, Estado-nação e nacionalismo, com novos conteúdos, voltarão a
adquirir força política e movimentarão as massas, particularmente nos
emergentes. Estes processos estão sendo alimentados pela guerra cambial,
crescente protecionismo e pelo fato de o problema de desemprego ser sempre um
problema nacional.
Como a crise que afetou
em cheio Estados Unidos, o consumidor ou importador em última instância e
emissor de moeda reserva, a economia mundial perdeu a sua locomotiva que puxava
o resto, desde a Segunda Guerra Mundial. O dinamismo econômico, de um lado, se
deslocou para a periferia, para os países emergentes; e de outro, deixou de ser
as importações do centro, para os mercados domésticos destes países. Uma nova
dinâmica global está emergindo, como mostra nitidamente as tendências e
projeções de crescimento pós-crise.
Com mais meio século de
crescimento, teremos uma sociedade moderna, democrática e rica
É nesse panorama que cabe
colocar o que acontecerá com o desenvolvimento brasileiro. Na verdade, a
pergunta correta seria: estamos preparados para aproveitar novamente um período
de vácuo de poder e nos inserirmos no novo contexto global e deslanchar um novo
projeto nacional de desenvolvimento sustentado?
A industrialização
brasileira, a locomotiva do processo de desenvolvimento desde os anos 1930 até
a crise da dívida externa, em 1980, não ocorreu por geração espontânea. Foi no
interregno hegemônico anterior, entre o declínio do império britânico e a
ascensão norte americana, que abriu espaço para manifestação de vontade
política.
A partir da crise da
dívida externa de 1980, ficamos dependentes do setor financeiro internacional
e, com a abertura da conta de capitais e a integração financeira, voltou a
dominar a mentalidade colonial na qual passamos a priorizar a estabilidade
macroeconômica, em detrimento de um projeto de desenvolvimento; e o fluxo de
capitais do exterior, como determinante dos investimentos e crescimento.
As políticas monetária e
fiscal e o regime de taxa de câmbio foram subordinadas àquelas prioridades. O
polo dinâmico foi deslocado para o exterior: sistema financeiro global e seu
fluxo de capitais. O mercado foi alçado a princípio organizador e coordenador
da atividade econômica. As ideias correlatas de Estado-nação, interesse
nacional e planejamento estratégico foram para o index e retiradas do
vocabulário e da prática, substituídas pelo discurso liberalizante e pela
teoria de dependência em que somos meros coadjuvantes subordinados e associados
ao poder hegemônico.
De 1980, quando finda a
industrialização por meio da substituição de importações e temos a crise fiscal
do Estado brasileiro, até 2004, a economia estava dominada por aquilo que Celso
Furtado chamava de "insuficiência dinâmica" da estrutura produtiva.
Apesar da indústria de transformação ser relativamente desenvolvida, era
incapaz de gerar efeitos dinâmicos capaz de autoimpulsionar seu crescimento.
Com "oferta ilimitada de trabalho" e enorme desemprego, os salários
da grande massa eram extremamente deprimidos e a grande maioria ocupava
empregos informais. Isso explica por que o Brasil tinha um perfil de distribuição
de renda e de salários dos piores do mundo.
Com a forte queda na taxa
de natalidade, em meados da década de 1980, a população jovem de 18 a 26 anos
parou de crescer e tem declinado desde então. Com a aceleração do crescimento,
a oferta de trabalho voltou a crescer. Naquele momento, a economia brasileira
sofreu uma transformação estrutural da maior importância do ponto de vista do
crescimento econômico autossustentado. Isso significou uma dramática mudança na
dinâmica do mercado de trabalho. Os salários na base da pirâmide começaram a
aumentar em termos reais e com crescente formalização das relações de trabalho.
Pela primeira vez desde a grande onda de imigração, nas primeiras décadas do
século XX, começamos a enfrentar uma situação em que mão de obra passou a ser
um fator relativamente escasso.
O mais importante é que,
nesse quadro, as empresas reagiram, aumentando a produtividade para compensar
os aumentos de salários, gerando um círculo virtuoso e dinâmico. Como a nossa
indústria de transformação está longe da fronteira tecnológica, há um espaço
imenso para aumentar a produtividade do trabalho com simples processo de
"catching up". E, de fato, os dados mostram que, a partir daquela
data, a trajetória de produtividade sofreu uma inflexão e deslanchou no Brasil
até pelo menos a crise de 2008.
Assim, geramos um círculo
virtuoso dinâmico em que os aumentos dos salários, de um lado, obrigam os
empresários à atualização tecnológica, e aumento de produtividade, de outro,
amplia a demanda de bens de consumo que estimulam os investimentos produtivos.
Esses investimentos têm sido autofinanciados pelas próprias empresas. A rigor,
os dados do IBGE mostram que, nos últimos anos, as empresas brasileiras poupam
muito mais do que investem produtivamente, isto é, os lucros retidos são
maiores do que os investimentos até pelo menos 2008, a partir de quando os
impactos do câmbio valorizado e seus efeitos sobre os custos deprimem as
margens de lucro.
A criação desse círculo
virtuoso dinâmico tem um paralelo na nossa história econômica. Corresponde ao
deslocamento, para dentro do país, do polo dinâmico em 1930, com a introdução
do processo de substituição de importações, que permitiu implantar a indústria
brasileira e gerou efeitos dinâmicos autossustentados até 1980. Com a crise
financeira de 2008 e novo período de interregno hegemônico, abre-se uma
oportunidade de voltarmos a completar o projeto de desenvolvimento econômico e
social, com o deslocamento do polo dinâmico de crescimento para dentro do país.
Com mais meio século de crescimento, ainda que moderado, completaremos o
projeto, iniciado nas últimas décadas do século XIX, de ter uma sociedade
moderna, democrática e rica.
Artigo escrito por Yoshiaki Nakano que é mestre
e doutor em economia pela Cornell University. Professor e diretor da Escola de
Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP/FGV). Ex-secretário da
Fazenda do governo Mário Covas (SP).

Nenhum comentário:
Postar um comentário